Tenho me recusado lembrar. Tudo bem, minha memória não é daquelas ótimas, estou mais pra formiga do que pra elefante. Mesmo assim, não lembro porque me recuso. E me recuso porque só assim eu não choro.
Na formatura do terceiro ano, a maior parte de nós não chorou. Muitos borrifaram o rosto, mas poucos rostos foram alagados. Busquei explicações para este acontecimento, pois me atingiu profundamente ter fugido da minha ideia anttiga de que a formatura deveria ser chorosa. Comecei a crer que nós não choramos porque não tínhamos clima pra formatura; porque aquela despedida não combinava com a gente e, por isso, ela não provocou grandes abalos em nossa estrutura emocional no momento. Ainda coloco fé nessas teses, mas completo-as com uma nova: nosso não-choro aconteceu porque, talvez, não nos permitimos lembrar. Pra ser mais exata, vou falar por mim. Eu não me permiti lembrar. As imagens daquele lugar e daquelas pessoas que, por anos, foram a minha vida, não me ocorriam. Eu via meus colegas arrumados, perfumados, maquiados, de um modo tão desatento que despercebi a despedida.
E até hoje despercebo. Sinto que quando vejo as fotos, quando ouço as histórias contadas por colegas de boa memória, não me lembro de que tudo aquilo que passou fez parte de mim e hoje faz parte do que eu não posso recuperar.
Soa triste demais falar destas coisas -e realmente é - mas um ser sem memória é quase pedra. Um ser sem memória não merece ser chamado (ou se chamar) de ser. Então, não sou.
E apesar de aceitar este gelo, que é uma blindagem pra mim, eu pretendo, quando for mais forte, derretê-lo e enfim, me alagar.
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